• 10 setembro de 2020
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A interação com o filho Autista

A grande maioria das mães e dos pais imaginam, sonham e planejam como será sua interação com os filhos:  “Quando ele(a) tiver tal idade ensinarei sobre as flores, na outra idade vou ensiná-lo(a) a dar cambalhotas, depois andar de bicicleta.  Vamos fazer juntos uma coleção de carrinhos e iremos a todos os jogos do meu time de futebol. Vamos brincar juntos de amarelinha, pular corda e elástico…”

Porém, quando se trata de uma criança com transtorno do espectro autista, essa interação não é tão simples e “automática” quanto a interação com crianças neurotípicas. Quando o meu filho quando ele tinha 3 anos de idade comprei 10 dinossauros e a minha expectativa era que eu conseguisse interagir com ele através do brinquedo, mas logo, os dinossauros se tornaram peças de enfileirar. No início, eu tentei, como muitas mães, fazer com que ele interagisse com o dinossauro: “Oi Enzo, eu sou o Dinossauro Rex! Quero ser seu amigo. Vamos brincar juntos?” Eu falava engrossando a voz, como se o brinquedo fizesse o papel de outra criança, buscando por uma amizade. Deu errado! Ele pegou e guardou todos os dinossauros.

A segunda tentativa, no dia seguinte, foi mostrar a ele os dinossauros “conversando” um com o outro, fazendo duas vozes engraçadas.  De novo ele levantou e me deixou sentada no chão, sozinha. Aliás sozinha não, com os dinossauros… Nos dias seguintes, elegi um dinossauro para ser “o meu” e fiquei o observando enfileirar o restante dos dinossauros, somente sentada ao lado dele, brincando sozinha com o meu dinossauro. Sem tentar interagir, mas com o objetivo dele se acostumar com a minha presença durante a brincadeira. No décimo dia, ele enfileirou os dinossauros, como de costume e eu coloquei o meu por último, na fila dele. Ele olhou para mim e sorriu. No décimo quinto dia, eu sentei e não peguei o “meu dinossauro”, deixei junto com os outros. Ele olhou para mim, com a maior atenção que havia conseguido dele nos últimos tempos, me entregou o meu dinossauro e juntos fizemos a fileira. Que nos dias subsequentes virou, ora um trem de dinossauro com barulhos de trem, ora uma cobra, ora os 10 indiozinhos dinossauros…

Foi assim que eu entendi que, tudo bem eu sugerir outras formas de brincar, mas antes preciso deixar que ele me ensine o jeito que ele gosta de brincar. Aprendi que a intervenção é importante, mas que entender uma forma sutil de me inserir no brincar é essencial para o sucesso nessa interação.

Claro que a brincadeira é um ótimo artifício para modelarmos comportamentos e inserirmos ensinamentos. Mas o maior objetivo da brincadeira é realmente a criança expressar os comportamentos de brincar que gosta!

Permita que seu filho lhe ensine suas regras ou preferências de brincar. Se permita não ensinar o jeito “correto” a todo o tempo e experimentar o quão divertido o jeito dele pode ser. Brinque com seu filho, sorria com ele. Se ele quer pular, pule junto. Se ele quer correr, corra também. Se ele quer enfileirar, enfileire e depois modele outras brincadeiras de forma funcional.

Não existe um jeito “certo” de ser criança, não existe um jeito padrão de ser uma infância feliz!

Michelle Carvalho, mãe do Enzo 💙

 

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