• 26 março de 2021
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As vitórias que ninguém vê

Todos os pais gostam de falar sobre seus filhos, contar com empolgação todos os grandes feitos daquele pequeno ser, todas as suas descobertas, frases engraçadas, palavras ditas com troca de sílabas e situações surpreendentes.

Nós, famílias atípicas, também! Mas muitas das nossas conquistas e vitórias são invisíveis aos olhos típicos.

O que uma criança com o desenvolvimento típico aprende naturalmente sozinha, por observação ou ensinando uma única vez, a criança com Autismo precisa de um treino intensivo, intervenções e estimulações, que são como conta gotas no processo de aprendizagem. 

A primeira vez que meu filho pediu um presente de dia das crianças foi aos 7 anos de idade. Ele não entendia que aquela data significava ganhar um presente, mesmo ganhando todos os anos. 

Eu sempre sinalizei com cartazes:

 “Hoje é dia das crianças”
“Você é uma criança maravilhosa”
“Presente de dia das crianças”

Ele lia, gostava do presente, mas não conseguia relacionar, naturalmente, a data com os presentes.

Pedir alguma coisa usando a frase de maneira correta, ao invés de apontar ou nos puxar, é outra vitória enorme, que para quem não vive cercado pelo autismo é uma situação comum, cotidiana.

O tão desejado “mamãe”, de que muitas mães típicas até reclamam, também é outra deliciosa conquista. 

Já vi uma amiga dizer:

“Nossa, essa criança me chama o dia inteiro, não aguento mais. É mamãe pra lá, mamãe pra cá, toda hora mamãe, mamãe, mamãe. Se eu ganhasse um real para cada mamãe que ouço, estava rica.”

E eu, com a voz até embargada, falei com amor:

“Você já é rica, não sabe o quanto esse mamãe é precioso. Como eu gostaria de ouvir um bem sonoro mamaaaãe”.

As vitórias das mães atípicas são compartimentalizadas. Vibramos com cada pequeno passo do processo.

Desmembramos as tarefas cotidianas e ensinamos cada porção de um todo, num movimento lento mas constante, construindo um aprendizado completo e a aquisição de maior independência.

As famílias típicas talvez nunca tenham pensado como um simples banho é complexo – está tão inserido no cotidiano que já entrou no automático. Mas as famílias com autistas conseguem ver as vitórias do processo. Quando compartimentalizamos, percebemos quantos passos são necessários entre ligar o chuveiro e desligá-lo.

E são essas vitórias invisíveis aos olhos típicos que nos movem, que nos impulsionam para o próximo “compartimento”, que nos fazem pensar estratégias para aprendizado, que nos fazem perceber que as pequenas conquistas são, sim, grandes vitórias.

 

Michelle Carvalho, mãe do Enzo 💙

 

*O Grupo Conduzir declara que os conceitos e posicionamentos emitidos nos textos publicados refletem a opinião dos autores.

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