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Como ensinar habilidades intraverbais para pessoas com Transtorno do Espectro Autista

O autismo é um transtorno do desenvolvimento que afeta um número crescente de pessoas em todo o mundo. Uma das características definidoras é o atraso acentuado ou ausência de linguagem vocal ou outra comunicação (Filipek et al., 1999). Nesse sentido, qualquer programa de intervenção abrangente para pessoas com autismo deve ter como objetivo aumentar as habilidades de linguagem e comunicação.

Muitas pessoas com autismo têm dificuldade em emitir mandos, ou seja, realizar pedidos (por exemplo, “posso pegar a bola?”) e em nomear itens (por exemplo, “é um carro!”), e assim também apresentam dificuldade com a linguagem mais avançada como, por exemplo, iniciar e manter uma conversa. Embora o processo de ensinar essas habilidades possa ser demorado, é possível ensinar habilidades de conversação usando técnicas da Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

O intraverbal é um operante verbal que se refere a uma resposta verbal sob controle de estímulos antecedentes verbais, sendo essa resposta mantida por reforçamento generalizado (Cooper, Heron & Heward, 2007). Dito de outra forma, refere-se basicamente ao comportamento de uma pessoa responder a algo que outra pessoa disse, como responder perguntas ou fazer comentários durante uma conversa. Essa habilidade, intraverbal, é controlada por declarações verbais feitas por outras pessoas. Um exemplo é quando um professor pede a seus alunos para nomearem seus alimentos favoritos para o almoço e o aluno responde “sanduíche!”, nesse momento o aluno é reforçado socialmente com um elogio. Essa resposta dada pelo aluno é classificada como intraverbal porque o que foi dito pelo aluno foi produzido por algo que alguém o perguntou – um estímulo verbal.

O repertório intraverbal pode variar de muito simples a complexa. Vamos ver algumas possibilidades a seguir:

– Preencher as palavras que faltam em músicas: comece cantando uma música que a criança goste, mas omita algumas palavras para que a ela seja dita pela criança.

– Sons de animais/objetos: inicie preenchendo perguntas simples como, por exemplo, “o cachorro faz …” ou “a buzina faz…”. Nesses casos, a resposta esperada da criança é responder, respectivamente, ‘’auau’’ e ‘’bibibi’’.

– Associações entre palavras: aqui a ideia é fazer com que a criança faça conexões entre palavras, lugares, ações ou eventos. Nesse sentido, podemos começar com associações simples e altamente preferidas de duas palavras, como “mamãe e … (papai)” e “sapatos e … (meias)”. Certifique-se de usar associações de palavras que seu filho pode fazer no tato.

– Responder a perguntas “WH”: As possibilidades são infinitas! “Qual o seu nome?”, “qual o nome da sua irmã?”, “onde você vai?”, “qual o nome da sua professora?”, “onde estão seus brinquedos?”, “onde estão seus sapatos?” e etc.

– Responder perguntas “WH” que têm mais de uma resposta: Mais uma vez, as possibilidades são infinitas. Esta atividade ajudará seu filho a perceber que há muitas coisas a dizer sobre um único tópico. Faça perguntas ao seu filho como: “o que você gosta de comer?”, “cite alguns animais?”, “que coisas você pode ver na praia?”. Como as pessoas com autismo podem não entender que as respostas podem mudar, talvez seja necessário modelar maneiras diferentes de responder às mesmas perguntas. Por exemplo, você pode solicitar que seu filho diga: “água, areia e pipas” em uma tentativa e na tentativa seguinte ” areia, pás e baldes”.

– Responder a várias perguntas sobre o mesmo tópico: Isso também ajudará seu filho a perceber que há muitas coisas a dizer sobre um único assunto e ajudará seu filho a permanecer no assunto por mais tempo. Por exemplo, se o assunto for escola, você pode levar se manter nesse tema por alguns minutos e perguntar diversas coisas ao seu filho sobre a escola: em que escola você estuda?, qual o nome da sua professora?, o que você faz na escola?, o que você comeu na escola?, com quem você brinca na escola?

 

Dicas:

– Escolha temas que sejam interessantes para o seu filho.

– Evite a ensinar seu filho a simplesmente memorizar respostas de perguntas. Por isso, treine variando as perguntas. Por exemplo, “qual o seu nome?”, “como você se chama?” e etc.

– Antes de ensinar a responder sobre associações de palavras, ensine-o a nomear os estímulos isoladamente. Afinal, para saber que computador vai com mouse, a criança precisa saber nomear computador e mouse.

– Outra maneira de ajudar seu filho a aprender a fazer comentários espontâneos é modelando-os em suas interações diárias com ele. Assim, crie o hábito de fazer comentários divertidos e entusiasmados sobre as coisas que seu filho está fazendo ao longo do dia e reforce-o pelas tentativas de comentar ou fazer perguntas.

Enfim, o objetivo final de qualquer tipo de treino de intraverbal é que a criança seja capaz de se envolver em uma comunicação espontânea – fazer perguntas e comentários sem que você o solicite, nesse sentido a recomendação é que você procure ajuda de um profissional certificado em Análise do Comportamento Aplicada para te ajudar nesse processo de aquisição de intraverbais, afinal esse é um processo contínuo e essencial para muitas atividades que realizamos na vida diária.

 

Referências:

Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2019). Applied behavior analysis. Upper Saddle River, NJ: Pearson Education.

Filipek, P. A., Accardo, P. J., Baranek, C. T., Cook, E. H. Jr, Dawson, G., Gordon, B., et al. (1999). The screening and diagnosis of autistic spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, 29, 439–473.

 

Arlene Amorim

Psicóloga e Supervisora ABA – Grupo Conduzir

CRP 13/7189

 

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