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Uma reflexão: devo atender a criança autista?

Confesso que esse ano estava com bastante dificuldade de escrever qualquer reflexão, no caso, por se tratar do final do ano, sobre o Natal. Talvez pela correria dos dias de trabalho, pelos estudos no mestrado ou qualquer outra questão que reforçasse meu repertório de esquiva. Assim, procrastinei e quase desisti de escrever, mas nada melhor que uma experiência concreta com uma família de criança autista para dar sentido e motivar uma boa reflexão.

Uma experiência real sobre ética e moral no atendimento à criança autista

Alguns dias atrás uma família, cujo filho autista estava sendo atendido por nossa equipe, nos procurou bastante apreensiva. O plano de saúde, que foi obrigado a pagar judicialmente o tratamento em ABA para a criança, havia determinado que o tratamento conosco deveria ser encerrado e iniciado em outra clínica. Todos que lidam com uma criança autista, em seus diversos aspectos, sabem o quão difícil é para uma criança mudar de rotina, casa, escola e, da mesma forma, de terapeutas.

A família da criança autista em busca de uma solução

Em resposta à família, pedimos que eles explicassem aos profissionais encaminhados a questão. Certos de que os mesmos teriam a atitude ética de negar a transição favorecendo a criança e acolhendo o pedido da família. Entretanto, o plano de saúde não cedeu e tampouco os profissionais envolvidos. O propósito do plano, segundo os advogados, seria desincentivar a família a prosseguir com a ação e os profissionais envolvidos agiram de forma a ganhar mais um cliente.

O desfecho do caso

Ao saber de tudo isso fiquei bastante chateada, triste, eu diria. Muito difícil perceber que para algumas pessoas o sentido de um trabalho tão delicado acaba sendo apenas financeiro. Isso tudo me fez refletir sobre o meu Natal. O sentido do que eu faço e como agir diante das injustiças que são inevitáveis. Como diria Shakespeare: “não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam”.
Me senti particularmente abalada ao ouvir o relato das terapeutas que atendiam a criança de que a mãe chorou ao se despedir. Senti pela equipe, pela família e, sobretudo, pela criança, a qual devemos sempre zelar acima de qualquer outro interesse. Senti minha fé no ser humano abalada.

A reflexão: devo atender a criança autista?

Alguns dias depois o telefone tocou, era outro plano de saúde pedindo atendimento para outro paciente. Ao analisar a situação, percebi que a criança já era atendida por outra clínica e que o plano estava comparando orçamentos. Pronto, simples assim: me encontrava do outro lado da situação que acabara de viver poucos dias atrás. Peguei o telefone e falei ao plano que se o paciente não estivesse sendo atendido por outra clínica e a família desejasse o nosso atendimento, poderíamos prosseguir. Caso contrario, não.

O sentido final de tudo

Estava ali a resposta que eu buscava e que deu sentido ao meu Natal. A moral é aquilo que não faríamos de jeito nenhum, mesmo que não tivesse ninguém olhando. Não importa se as pessoas ao seu redor às vezes não fizerem o certo. Não devemos perder a nossa própria perspectiva do que é correto, a busca pela ética.

A ética é definida por Aristóteles como conjunto de valores socialmente aceitos. Podemos realizar escolhas erradas, mas acredito que as próprias contingências se encarregam de selecionar comportamentos que prezam pela ética. Porém, como diria minha mãe, isso leva tempo.

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