• 23 abril de 2021
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Um quase diário de bordo (Parte II)

Resolvi pescar novamente, já que foi uma ótima forma de ocupar a cabeça. Mas meu irmão não iria desta vez (tinha tomado remédio para o intestino funcionar e tinha medo de o efeito bater quando estivesse na pesca). Isso me deixou certamente inseguro, já que não teria a emoção de uma inveja competitiva e provocações fraternais do dia anterior. Duvidava que essa aventura poderia ser mil vezes melhor. Meu irmão brincou: “se encontrar uma sucuri, dá pra usar essa foice aqui”.

Meu pai deu ré até às margens do rio para que meu vô posicionasse o barco na água, porém meu pai (não sei por qual motivo) acelerou, e a corda que ligava o barco (onde estava seu filho) à terra firme prendeu no carro e quase voei para o espaço sideral. Porém, minha figura paterna é um ótimo motorista e, em poucos segundos, parou a máquina.

Fomos depositar arapucas (armadilha para camarões) em alguns pontos estratégicos (concentrações de aguapés). Meu pai ficava na frente do barco quando atracávamos a embarcação num monte de mato. A armadilha consistia em algumas cordas presas num garrafão de água cortado ao meio (onde a parte do bico era invertida e no fundo eram depositados um pouco de ração). 

Meu pai amarrou as cordas em algumas folhas grossas e afundou a armadilha com o remo. Por último, demarcamos aquela área com um saco plástico amarrado em outras plantas para voltar no dia seguinte e ver se conseguíamos iscas novas. Fizemos isso em mais duas áreas e fomos procurar o local ideal para a pesca.

Estávamos preparados para pesca, certo? Nem pensar, meu vô disse decepcionado: “esquecemos as iscas lá na pia do rancho!” Pois é! Conhece profissionais mais preparados que nós? Voltamos tudo de novo. “Porcaria, vou ter que esperar meu pai voltar pro rancho! É perto, mas estou ansioso para superar meu recorde de três piranhas!” Quando avistamos a margem, dois vultos esbranquiçados se formaram num tablado: minha mãe e irmão com as iscas numa sacola. Tiraram o maior sarro da nossa cara!  Minha mãe disse que foi minha vó que lembrou poucos minutos após termos saído. Se não fosse ela, nossa pesca teria ido por água abaixo.

Meu vô disse que os peixes costumavam se concentrar na região de aguapés. Achamos um lugar que parecia simpatizar com meu avô, pois foi o único que conseguiu um milagre de puxar um peixe (cujo nome é “porquinho”). Depois disso não deu nada! 

Fomos para outro lugar. Agora não tinha erro: era o mesmo do dia anterior em que havia pescado piranha. Na verdade, o que não tinha era acerto! Consegui um porquinho pelo menos. Outro lugar e nada! Até que achamos um canto e resolvemos teimar. Meu vô foi o primeiro: uma traíra. Meu pai, que nem estava levando a pesca muito a sério, pescou outra traíra quase uma hora depois.

Eu juro, tentei de tudo: camarão, bacon, lambari… Nada! Comecei a ter vontade de urinar, mas não iria abandonar a batalha! Meu espírito competitivo deu o alarme: “Vai deixar seu pai pegar essa traíra, que vale mais do que qualquer piranha ou porquinho?”

Passaram-se quase duas horas, e já eram 18:00 (saímos umas 14:30). Até que ela veio! Finalmente! Depois de trocar duas vezes de vara!  A traíra, agressiva e que, mesmo com a força de um caminhão, não poderia se livrar de um anzol cravado no céu da boca.

Vamos embora! Estava louco para ir embora urinar… ESPERE! A vara que me vô deixou encostada começou a se agitar, as águas borbulhavam anunciando algum monstro. O pescador veterano começou a puxar a vara de bambu que estava tão curvada que um pouco mais de força daquela criatura teria quebrado o equipamento. Não é que ele conseguiu? Fiquei apavorado, mas não podia me mexer muito – já que estava na ponta do barco. Parecia uma cobra gigante! Um filhote de sucuri! Aquele moleque tinha razão! 

Ufa, era só um peixe chamado piramboia. Gemi igual a um camundongo assuntado! Não queria ficar no meio do barco (onde estava aquela coisa sendo segurada pelos pés do experiente pescador). 

No fim já era noite, e eu (ideia do meu pai) cheguei antes dos dois no rancho e contei desesperado:” fomos atacados por uma sucuri e quase morremos!” Falei para o meu irmão que se não fosse por ele eu estaria morto (o sujeito ficou todo orgulhoso). Minha mãe foi a que realmente acreditou na minha mentirinha de poucos minutos. Não consigo mentir por muito tempo sem ficar rindo! Foi uma aventura realmente inesquecível!

 

Matheus Cuelbas tem 20 anos e considera tanto a escrita quanto a música o combustível de sua vida. Aos 14 recebeu o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Como colunista do blog, pretende compartilhar as dificuldades e os impactos que o diagnóstico e as terapias tiveram em sua vida tão como as descobertas ao longo de um tortuoso caminho.

 

*O Grupo Conduzir declara que os conceitos e posicionamentos emitidos nos textos publicados refletem a opinião dos autores.

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