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Ecolalia vs. Especularidade – Por que a criança repete o que eu falo?

Sabe aqueles momentos em que a criança repete o que o adulto fala? Essas repetições podem ser ou não ser típicas do desenvolvimento da criança. Como saber?

Primeiro, definiremos dois conceitos: ecolalia e especularidade.

Depois, explanaremos as implicações de cada uma.

Ecolalia se trata do comportamento de repetição exata da fala do outro, incluindo sua entonação e ritmo (prosódia). É como se a criança tivesse gravado a fala do outro em um rádio mental e simplesmente colocado para repetir. Um exemplo muito comum é quando o adulto questiona:

– Oi, João, tudo bem?

E o João responde:

– Oi, João, tudo bem?

A entonação com a qual João respondeu foi a de pergunta, repetindo exatamente o que lhe falaram logo após a fala do outro (ecolalia imediata).

 

Em indivíduos com TEA, esse comportamento é muito comum.

Na clínica, muitos pais trazem a queixa de “meu filho fala tudo, mas é só repetição”. Geralmente, essas crianças apresentam outros comportamentos, como não responder ao que lhes é perguntado, e raramente têm uma brincadeira simbólica (faz de conta) bem desenvolvida.

Mas por que algumas crianças falam tanto se nem sabem brincar? A explicação não é tão simples, mas tentaremos esclarecer minimamente.

 

Fala é diferente de linguagem. Fala diz respeito a sons da língua expressados pelos órgãos articulatórios. Já a linguagem é a comunicação organizada por símbolos e está relacionada à formação de ideias, organização de pensamentos, significados e representações. Brincar de faz de conta (jogo simbólico) é como a criança aprende representações e símbolos. Se uma criança não sabe simbolizar na brincadeira, pode ser um indicativo de alteração na linguagem.

O desenvolvimento da fala ocorre em uma região cerebral diferente da área do desenvolvimento da linguagem. (Papathanassiou, 2000) E, se a região da fala se desenvolver antes da linguagem, essa criança repetirá a fala do outro sem que necessariamente tenha algum sentido, motivo ou contexto – o que caracteriza a ecolalia. Portanto, para que o indivíduo saiba usar as palavras com “personalidade própria”, ou seja, com a própria prosódia, primeiramente ele precisa ter o desenvolvimento cerebral para habilidades de símbolos/representações (linguagem) e então conseguirá usar uma fala dentro do contexto e com a entonação personalizada.

Existem ecolalias imediatas (feitas logo após a fala do outro) que são usadas para preencher o seu turno da conversa, assim como aconteceu no diálogo do João exemplificado acima. Nesse diálogo, é notável que ele compreendeu que o outro fez uma pergunta direcionada e que percebeu que deveria responder, porém, não tinha repertório linguístico para isso. (bibliografia)

Cabe ressaltar que existem indivíduos que se comunicam por meio de ecolalias tardias (repetições exatas da fala do outro após outras emissões da própria criança). Como exemplo podemos citar uma criança que, sempre que quer ir ao banheiro, se direciona para o adulto dizendo: “Você quer fazer xixi?”. Perceba que a criança usou uma pergunta que geralmente é feita a ela para pedir para ir ao banheiro.

Alguns indivíduos fazem ecolalias tardias ou imediatas que aparentemente não têm função de comunicação. Esse comportamento é muito comum e precisa ser estudado e analisado cuidadosamente por profissional capacitado para que se avalie a sua funcionalidade.

 

Possivelmente, até aqui você já tenha notado que a ecolalia não faz parte do desenvolvimento típico da criança. Mas seguiremos e explicaremos a especularidade para que possa tornar mais fácil a identificação de repetições de fala típicas ou não.

A especularidade é o comportamento de repetição de total ou parte da fala do outro com prosódia própria (entonação).

Como exemplo temos o seguinte diálogo:

Adulto: Vamos brincar?

Ana: Vamos brincar.

Repare que a criança entendeu o seu momento do diálogo e respondeu com as mesmas palavras, entretanto, com a entonação de resposta. Isso demonstra que Ana, além de ter o desenvolvimento da fala, conseguiu demonstrar que compreendeu que no momento da resposta deve mudar a entonação, pois isso altera o sentido da frase. Esse tipo de refinamento indica o nível de representação dos detalhes da linguagem oral dessa criança. Possivelmente, Ana sabe, ainda que minimamente, brincar de faz de conta e como dar comida para a boneca, por exemplo.

Por volta de 2 anos de idade, a maioria das crianças com desenvolvimento típico passa a apresentar esse comportamento, e ele aumenta de frequência e vai reduzindo até estar praticamente extinto aos 2 anos e meio.

 

Especificamente dentro do espectro do autismo, temos uma variedade de combinações entre esses dois comportamentos. Muitas crianças com alterações no desenvolvimento da linguagem podem apresentar tanto ecolalias quanto especularidade.

Infelizmente, em alguns casos não foi possível promover refinamento do desenvolvimento da linguagem a ponto de usarem sua própria entonação. Sendo assim, conseguiram se comunicar apenas por ecolalias. Então, o trabalho da fonoaudiologia é justamente usar essas ecolalias de forma funcional para que os indivíduos possam ter maior independência comunicativa.

Existem casos de pacientes com TEA que apresentam diálogo, entonação própria em alguns momentos e, em outros, algumas ecolalias pontuais.

Ao estudar especificamente sobre o assunto e observar muitas crianças, é possível notar que o desenvolvimento do diálogo a partir de uma fala ecolálica não se dá de repente e sim aos poucos. Portanto, como esse desenvolvimento não é repentino e nem linear, a criança pode ter ao mesmo tempo ecolalias com alterações sem variação de prosódia e também emissões com início de prosódia própria.

É importante dizer que muitos indivíduos com o desenvolvimento típico apresentam, principalmente durante ociosidade ou momento de brincadeira, repetições de falas de desenhos, ou partes de músicas.

Outro fato importante é que o único profissional da área da saúde capacitado, treinado e com experiência para definir ecolalias e especularidades é o fonoaudiólogo. Dessa forma, o presente texto visa esclarecer um pouco sobre o assunto, mas ele não dá conhecimento suficiente para discriminar entre um comportamento de linguagem oral típico e um não típico.

Como sugestão para aprofundamento no assunto, deixo referências bibliográficas excelentes sobre o assunto.

 

Referências bibliográficas

Bender, S; Surreaux, LM . (2011). Os efeitos da fala da criança: a escuta do sintoma na clínica de linguagem. Cadernos do IL (UFRGS), 42, 129-45.

De Lemos, C. (2002). Das Vicissitudes da Fala da Criança e de sua Investigação. Cadernos de Estudos Lingüísticos, Campinas, 42, 41-69.

Fernandes, FDM. (1996). Ecolalia em psicoses infantis. Fonoaudiologia em Distúrbios Psiquiátricos da Infância. [S.l: s.n.].

Itard, JMG. (1825). Memoires sur quelques fonctions des appareils de la locomotion de la prehension et de la voix. Archives Generales de Medecine, 8, 385–407.

Oliveira, MT. (2003). A Diversidade Sintomática na Ecolalia. Rev Dist da Comum, 2(4), 351-60.

Papathanassiou, D, Etard O, Mellet E, Zago L, Mazoyer B, Tzourio-Mazoyer N. (2000). A common language network for comprehension and production: a contribution to the definition of language epicenters with PET. Neuroimage 11(4), 347-357.

Saad, AGF; Goldfeld, M. (2009) A ecolalia no desenvolvimento da linguagem de pessoas autistas: uma revisão bibliográfica. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, 21(3), 255-260.

 

Tassiana Barbeiro Fragoso de Sá

Fonoaudióloga e Supervisora – Grupo Conduzir

CRFa.2-16625

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