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A educação de uma criança autista

 
Educar uma criança não é tarefa fácil para nenhuma família. Ensinar valores, princípios e estabelecer limites dá um trabalho gigantesco, é cansativo, desgastante. Muitos, inclusive, optam por não o fazer e, infelizmente, colhem maus frutos no futuro.
Educar uma criança com autismo é um desafio ainda maior, pois exige todo esse trabalho e o desgaste dito anteriormente, associado à necessidade de uma persistência absurda, já que, na grande maioria das vezes, não sabemos se estão assimilando o que realmente queremos ensinar. O “eu já te disse mil vezes” que a maioria das mães típicas usa quando ensina a mesma coisa pela quinta vez, em nosso caso, mães atípicas, provavelmente é a milésima vez mesmo!!! E sem saber se será necessária a milésima primeira, com a mesma paciência que foi ensinado pela segunda vez. 
Existe também uma linha bastante tênue entre o que é da idade e o que é do transtorno e, claro, sempre aquela pontinha de “puxa, essa criança já tem tantos desafios a vencer, já vai passar por tantos nãos, acho melhor deixar pra lá”.
É desafiador sim, mas extremamente necessário. Uma coisa é a criança ser portadora do transtorno do espectro autista, outra coisa completamente diferente é ela ser mal-educada.
Já ouvi muito: “Nossa, que sorte a sua, apesar de ser autista, ele é tão calmo e educado”. Então, parafraseando Arnold Daniel Palmer, um grande jogador de golfe norte-americano: “Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.
Meu filho tem sim dificuldades de entender regras sociais, quando ele quer passar e tem outra criança no caminho, ele ignora e empurra a criança sim, mas quantas vezes ele fizer eu irei corrigir e mostrar que é necessário respeitar o espaço do outro. Jamais vou virar para a mãe da criança empurrada com um sorriso sem graça e dizer: “ele é autista”, como quem pede um desconto pelo mal comportamento. O que costumo fazer é parar a brincadeira, corrigir, explicar que empurrar não é legal e machuca o amigo, faço ele pedir desculpas e, aí sim, olho para a mãe da criança empurrada e digo: “ele tem Autismo e ainda tem um pouco de dificuldade com regras sociais, me desculpe, tenho tentado todos os dias fazê-lo entender, mas vou me esforçar mais”.
Enzo passou por muitas mudanças ultimamente, escola, cidade, estrutura familiar e uma das reações dele, no meio de tantas adaptações, foi de morder, principalmente os amigos da escola. Eu nem dormia direito por causa disso, li textos de inúmeros pedagogos ensinando o que fazer, ouvi pediatras, vídeos de educadores, consultei amigas professoras, me reuni com a diretoria da escola, pensamos juntos numa estratégia e, em dias mais extremos e de tamanha frustração diante desse comportamento, comecei a testar meu filho até que ele ME mordesse, assim eu teria chance de corrigi-lo na hora, conversar e falar de meu jeito, com minha autoridade de mãe que aquilo era inadmissível. Eu sabia que, quando ele mordia alguém na escola, mesmo que eu o corrigisse duas horas depois, não seria tão eficaz quanto no ato da mordida. Juro que fiz isso algumas vezes até que ele entendesse e não se comportasse mais assim. Fiquei com a barriga sangrando um dia, marcada pela mordida dele. Achei que ia perder o dedo dentro da boca dele num outro dia… Pedagogicamente ou não, foi o jeito que encontrei de desfazer esse comportamento. Era mais fácil cruzar os braços e deixar a escola se virar? Sem dúvida! Mas a educação de meu filho é responsabilidade minha.
Minha vontade era fazê-lo enviar uma carta com um chocolate pedindo perdão a cada amiguinho que ele mordeu, mas a escola achou melhor não alimentar o acontecimento e eu acatei.
Ele é obediente, mas igualmente persistente, quando digo “desce” de algum lugar que ele subiu, mas sei que pode se machucar, ele obedece imediatamente, desce e no segundo seguinte sobe novamente. Preciso reformular o comando e dizer: desce e não sobe mais.
Sempre em alerta pela falta de noção de perigo, pela falta de traquejo social e pela persistência ser maior que a obediência, afinal de contas, é uma criança e, como todas as outras, testa seus próprios limites e o limite dos pais.
No fim do dia, estou exausta e pensando que no dia seguinte vou me juntar ao grupo daqueles que preferem não fazer, mas, ao acordar, olho para aquela criança sensacional, cheia de energia, com os olhos curiosos pelo que o mundo está por oferecer, pedindo asas e limites, repenso, respiro fundo e vejo que meu filho merece minha dedicação e colher lindos frutos de meu esforço.
Educar é obrigação dos pais, seja seu filho neurotípico ou autista, jamais terceirize algo tão importante. 
Se você quer um mundo melhor para seu filho viver, comece educando um ser humano melhor para o mundo receber.
 
Michelle Carvalho, mãe do Enzo

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