• 30 dezembro de 2017
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  • Autismo

Ética: ou você tem, ou você não tem!

Nos últimos anos tenho tido o hábito de escrever uma reflexão na época de Natal, quase sempre falando sobre ética, moral e valores. Esse ano, entretanto, me percebi exausta até mesmo para escrever qualquer reflexão. Apenas após uma breve viagem de férias consegui recobrar forças para, então, escrever esse texto.  Dessa forma, não é mais Natal. Já seria um texto de ano novo ou de aniversario, uma vez que completo mais um ano daqui a alguns dias, mas, enfim, vamos lá!
Em primeiro lugar, conclui o motivo da minha exaustão completa em 2017: nunca me deparei com situações de tanta imoralidade na área na qual eu trabalho durante esse ano. Houve de tudo: desde decepções com instituições e conselhos que deveriam representar a Análise do Comportamento e, ao contrário, mostraram apenas existir por objetivos políticos e salvaguardar interesses próprios; clínicas de ABA que fecham acordos com planos de saúde aceitando fazer “light ABA” – poucas horas de intervenção por semana (isso nem mesmo é ABA) e prestando um serviço de péssima qualidade. Em contrapartida, também me deparei com famílias que não levaram o tratamento a sério, ainda que esse caso seja bem raro e pontual também existe quem não valorize a terapia especialmente quando não paga por ela.
Acredito que vivemos no Brasil um momento não apenas de imoralidade, como já mencionei, mas também de amoralidade. Muitas pessoas perderam completamente os parâmetros daquilo que é certo, bom, justo ou apenas oportuno. Ética é o parâmetro sobre o qual agimos mesmo que não tenha ninguém nos vigiando. Nas palavras do filósofo Clóvis de Barros Filho: “A ética é uma luta constante contra a canalhice”.
Para muitos, essa pode parecer uma definição ampla e complexa, mas para mim é simples: quando uma instituição não defende os interesses da população e de quem mais precisa ela não representa aquilo que deveria, isso é canalhice; quando o Plano de Saúde pede a diminuição das horas ou da qualidade do serviço e a clinica concorda, isso é canalhice, quando se vende “ABA” mas, na verdade, aplica-se brincadeira e recreação, isso é canalhice – simples assim!
No Brasil muitas pessoas perderam essa objetividade. Ética é um valor binário: ou você tem ou você não têm!
Entretanto, no mercado das oportunidades sempre há alguém disponível para vender barato e com baixa qualidade um serviço tão complexo, delicado e específico. Nunca vou me esquecer da expressão das mães de crianças com TEA que durante esse ano foram encaminhadas para a terapia nessas clínicas e viram seus filhos regredirem de forma considerável em semanas ou meses.
Mas, mesmo vivendo tudo isso e já estando exausta, fui ainda mais teimosa e ousada: encarei, por fim, a luta de levar a população a informação de que tramita no Congresso Nacional um Projeto de Lei que visa impedir o exercício de direitos básicos do consumidor, entre eles, os de nossas crianças com TEA e suas famílias. Nunca tinha tido a oportunidade de encarar políticos de frente e vivenciar aonde começam (ou terminam) o ciclo da desonestidade e falta de ética. O nosso povo espelha nosso Congresso ou nosso Congresso espelha nosso povo? Me parece um ciclo difícil de encontrar começo e final no ponto ao qual chegamos.
Concluí que enquanto tiverem pessoas que se vendem, fica muito difícil cobrar ética de quem nos representa e, não menos verdade, enquanto quem nos representa se corrompe, como recobrar a ética de um povo que aprende que o oportunismo é mais importante que a justiça?
 
Renata Michel – Analista do Comportamento
 

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