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Não quero ver o medo atrás da porta (parte I)

Como prometido, irei falar sobre os problemas nos meus convívios sociais, que minhas expectativas estratosféricas ajudaram a piorar. Eu sei, não prometi nada, mas isso é apenas um detalhe. O importante é o drama, principalmente num texto como esse. Ah, esse não é um texto para preguiçosos, pois vão ter umas quatro ou cinco partes.

Por onde começo? Lembra que eu falei sobre o Matheus de 11 anos que começou a usar o desejo de ser um intelectual para não lidar com seus medos? Se não lembrar, o problema é seu que não leu a crônica anterior. Bem feito! Enfim, agressividades à parte, iremos partir desse período aí.

Estava numa turma completamente diferente, com pessoas desconhecidas, e à primeira vista, meio amedrontadoras. A primeira pessoa que conheci foi um garoto meio estranho chamado G. Ele era meio gordinho, assim como eu na época. Era um cara legal.

Muitos alunos daquela turma pareciam legais. Queria ter conversado com eles, mas tinha medo de ser inconveniente, atrapalhar ou ser, de alguma forma, julgado. Esse medo foi o embrião de todas as minhas turbulências futuras.

Dois anos depois, eu era uma pessoa completamente diferente, tanto fisicamente, quanto de forma mais impactante, emocional e psicologicamente. Seria o Matheus de 11 anos três vezes pior, de certo modo. Estava completamente isolado dos alunos e até da minha família. Ficava no quarto estudando ou simplesmente escrevendo e tendo ideias de projetos.

Ao mesmo tempo de não querer sair dessa zona de conforto, comecei a me sentir meio triste e angustiado por estar sempre sozinho. No fundo, eu queria conversar e conviver com pessoas. Naquela época, descobri que uma menina lá da minha sala, G., era minha vizinha. Aí, nossas mães resolveram criar um sistema de caronas: de manhã minha mãe nos levava à escola, e, à tarde, a mãe dela nos trazia de volta. Comecei a criar a expectativa de que ela viesse falar comigo para depois virarmos amigos ou algo do tipo. Uma tremenda de uma preguiça de não ter que agir e enfrentar meus medos. Aí, meio que para chamar a atenção (e ao mesmo tempo negar a mim mesmo o amor e admiração que sentia por ela), comecei a ser bem ofensivo.

Ao final dessa história, no ano seguinte, comecei a aceitar meus sentimentos e desejos de amizade em relação a G. Mas, no fim, ainda não tinha coragem para falar o que sentia. Em paralelo a isso, minha tristeza virou uma depressão. Fiquei tanto tempo me culpando por não enfrentar os medos, mas também ficava me cobrando para pensar apenas nos estudos. Infelizmente resolvi começar a me mutilar como castigo pela distração na escola, até mesmo por notas baixas. Minha cabeça estava virando, gradativamente, uma névoa bem densa.

Desde muito cedo, eu me colocava para baixo por (mais um) medo de me tornar um narcisista. O medo é algo inevitável na vida, porém a vida não se resume a ele, ao menos que você o deixe entrar. Muitas vezes, a zona de conforto é a maneira mais eficiente de entregar sua vida a esse sentimento.

Achei que, depois da formatura do Fundamental II, eu nunca mais iria ver a G. Mas quando eu menos esperava, minha mãe e eu fomos visita-la depois de saber que ela tinha se queimado bastante. A vida é um negócio engraçado: reencontrar pessoas em momentos improváveis é a mais graciosa trolagem que ela nos proporciona.

 

Matheus Cuelbas

“Matheus Cuelbas tem 20 anos e considera tanto a escrita quanto a música o combustível de sua vida. Aos 14 recebeu o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Como colunista do blog pretende compartilhar as dificuldades e os impactos que o diagnóstico e as terapias tiveram em sua vida tão como as descobertas ao longo de um tortuoso caminho.”

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