• 6 novembro de 2020
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Não quero ver o medo atrás da porta (parte III)

Esses dias andei refletindo sobre como os momentos mais dolorosos e difíceis da nossa vida nos deixam mais fortes e emocionalmente desenvolvidos. Isso parece muito clichê, mas não deixa de ser um clichê verdadeiro.

Vocês se lembram do outro texto? É sério! Esqueci o que havia escrito… Acho que estou numa ressaca sedentária criativa ou algo do tipo… Ah! Lembrei! Até que não sou tão desleixado como imaginava.

Aquele período de 2017 não foi tão simples e leve como no texto que relatei sobre. Para falar a verdade, esse foi o período mais pesado pelo qual passei. Se com 14 anos eu me flagelava para me punir pelas notas ruins, dessa vez me mutilava por dois motivos: chamar atenção e, o mais importante, ficar em coma. Na minha cabeça da época, achava que deveria fazer algo para me anestesiar de todas as feridas sentimentais que surgiam.  Estava num buraco fundo e escuro. Eu me sentia como se ninguém me amasse ou se importasse minimamente comigo. Me sentia um lixo, uma carcaça podre que ainda respirava. Cortei os pulsos (cada um num período diferente do ano) … Nunca tinha ido tão longe na minha ilusão solitária. Mas tive a sorte de estar fazendo terapia… Naquele ano, tinha mudado de uma terapia clínica para uma comportamental, o Conduzir.

A terapia no Conduzir era algo completamente novo e ameaçador para mim: era atendido por quatro terapeutas que, de tempos em tempos, me faziam sair de casa, o que era um pesadelo eterno naquele período. Às vezes, sinto que não estaria vivo e muito menos convivendo com pessoas se não estivesse fazendo aqueles atendimentos insuportáveis.

Pouco a pouco, comecei a vomitar minhas angústias, que eram devolvidas em perguntas ou perspectivas opostas às minhas. Agora olho para trás, e a única vontade que tenho é a de dar uns puxões de orelha no Matheus do passado. Cara mala do caramba!

Por cerca de um ano, fiquei com muitas sequelas da minha convivência com L. e alunos do Provecto. Parecia coisa de novela mexicana. Sério! Imagina o seguinte diálogo:

-Ah! A L. não olha mais nos meus olhos, aquela babaca insensível!

-Coitada da L., gente. O Matheus é um arrogante insensível mesmo! Até fica respondendo nossas dúvidas quando a gente pergunta pro professor!

-Nós sete gostamos do Mat, ele só é meio confuso e inconveniente de vez em quando…

-Não aguento mais entrar naquela escola maldita! Ninguém me ama, ninguém me quer! Vou me trancar no meu castelo e ficar lá até virar pó! Adiós, muchachos! Hasta la vista, babies!

Espero que não tenha sido tão tosco assim… De qualquer forma, depois disso, com muitas feridas abertas, fiz um semestre de faculdade até trancar por ainda não estar pronto para ser organizado/dedicado e muitos menos com o psicológico em dia para suportar 4 anos me dividindo entre estudar e me lamentar sobre 2017 etc. Aí, no final de 2018, veio meu primeiro estalo: ainda sem superar os eventos ocorridos na Era Provecto Lauritiana, tomei uns 30 ou 40 comprimidos. Fui para o hospital cambaleando, vendo todos os exames através de uma estação espacial em outro planeta. Vi muita gente preocupada comigo e aí …PLIM! Comecei a tentar ver a vida por outro ângulo. Mas a cabeça só clareou mesmo no meio desse ano (acho que, no próximo capítulo da minha novela mexicana, vou colocar o que aconteceu para minha mente nebulosa clarear de verdade….).

Hoje em dia, é meio estranho ver que o período mais demorado e doloroso de superar era mais uma das tempestades em copo d´água que a vida nos proporciona. Mesmo algo parecendo pouco para uns, pode ser muito para outros e, uns anos depois, pode não ser mais nada para nenhum dos envolvidos.

 

Matheus Cuelbas tem 20 anos e considera tanto a escrita quanto a música o combustível de sua vida. Aos 14 recebeu o diagnóstico de Símdrome de Asperger. Como colunista do blog pretende compartilhar as dificuldades e os impactos que o diagnóstico e as terapias tiveram em sua vida tão como as descobertas ao longo de um tortuoso caminho.

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