• 1 fevereiro de 2021
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Não quero ver o medo atrás da porta (parte IV)

    Olá leitores das minhas crônicas! Esses 1000 anos de ausência passaram voando para mim… Por mais que eu realmente tenha abandonado vocês de propósito, a fuligem que o tempo jogou em cima de seus olhos tem uma explicação (por favor, concordem com a cabeça seguida de uma expressão de perplexidade… Feito isso, agradeço o estímulo para minha preguiça não domar minha alma).

    Em meados de março comecei a colocar em prática a ideia de publicar um livro de poemas, mas não um livro em que eu juntasse uns versos prontos que fiz durante alguns anos. Achei que seria uma boa ideia resgatar poemas que escrevi aos 14 anos, reescrevendo-os, mas sem perder a essência ou origem deles.

     É engraçado, pois mudei totalmente minha visão sobre alguns versos: quando eu era um menino solitário de óculos redondos achava esses escritos minhas “obras primas” e hoje acabo pensando “Tá uma droga! Mas gostei desse título…”.  Esse tipo de “desilusão poética” foi algo maravilhoso, já que eu pensava que tinha me tornado um escritor fracassado, sem dedicação ou propósito e que ficava sempre se punindo por ter se tornado tudo aquilo que mais abominava nos “períodos de glória aos 14”.

      Lembro que em 2014 tive dois cadernos de poemas: um com uma capa do Romero Brito (eu tinha vergonha daquilo) e outro de capa preta (onde estão os poemas que estou trabalhando). 

     Quando comecei a escrever naquele caderno extravagante, eu tinha uma terrível paranoia de alguém abrir, descobrindo assim meus sentimentos mais profundos que tinha vergonha de externar.

    Então, para evitar tamanho pesadelo, comecei a criar poemas criptografados no caderno preto (em outras palavras, criava o máximo de metáforas que meu cérebro pudesse processar). Todos esses códigos eram uma caverna aconchegante para mostrar meu ódio pelos jovens; escancarar uma paixonite avassaladora sem a interferência do meu eu intelectual; a depressão e o fascínio pela figura da Morte.

       Sentia-me na obrigação de escrever os 83 poemas e publicá-los na ordem em que estão dispostos naquele caderninho velho, porém comecei a me sentir imundo e mau caráter por cogitar a possibilidade de usar meus poemas um pouco mais recentes para tapar buraco, por mais que tenha conversado com minha mãe e ela tenha me tranquilizado com “claro que não tem problema, os textos são seus!”  (tal conversa em que ela teve a capacidade de rir da minha angústia tão complexa). 

      De qualquer modo, é impressionante o quanto consegui mudar não só na escrita, mas como pessoa. Vendi minha alma para a ideia de ultrarromantismo, fiz da minha própria geração um poço para vomitar o ódio de me sentir sozinho… Ao menos as pancadas me fizeram aprender a sorrir de vez em quando, até mesmo para 83 desilusões poéticas.

 

      Matheus Cuelbas tem 20 anos e considera tanto a escrita quanto a música o combustível de sua vida. Aos 14 recebeu o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Como colunista do blog pretende compartilhar as dificuldades e os impactos que o diagnóstico e as terapias tiveram em sua vida tão como as descobertas ao longo de um tortuoso caminho.

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