• 14 dezembro de 2020
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O escritor em branco

Deixando a música um pouco de lado desta vez, vou expor, vomitar, exorcizar minhas angústias atuais e “vintage” (ou seja, algo velho dito de forma gourmet). Então, como você, leitor moderno, tem muita coisa melhor para fazer ao invés de escutar uma conversa de “bêbado nostálgico”, vamos continuar a estória.

Agora, vamos voltar um pouco mais no passado do que no último texto. Em algum lugar de 2011, existia um anão juvenil (ou criança, dá na mesma). Esta criatura, pálida como uma folha de papel A4, estava andando mais longe num caminho que escolheu seguir há um ano atrás. Ele queria ser um intelectual solitário. Mas, convenhamos, isso era mais uma balela minha para fugir dos meus medos e dificuldades sociais.

Era uma etapa nova da minha vida escolar: agora estava no Fundamental II. Uma terra completamente diferente e obscura me aguardava. Nunca tinha estudado no período da manhã e eu achava que esses próximos 6 anos de escola seriam uma merda eterna.

Na primeira semana de aula, os alunos foram presenteados com uma chuva de professores, trabalhos e provas, um dilúvio psicológico de 6 anos. Um dos professores de que mais gostei de conhecer durante aquele período foi o C, que dava aula de história.

Mesmo tendo simpatizado com C, minha disciplina favorita era Produção de Texto. Era uma aula libertadora, em que você podia inventar estórias. Parecia uma oficina cinematográfica de palavras.

Comecei a escrever fora das aulas, para relaxar e me distrair um pouco. Mas, como todo ambicioso, sempre pulava os degraus. Já queria escrever um livro, mesmo sem conseguir escrever uma narração maior que três páginas. E então se deu início a uma angústia que carrego até hoje: nunca termino nenhum projeto. Ao longo de três ou quatro anos, acumulei vários livros inacabados: “Em busca da felicidade” (a pior coisa que já escrevi), “Entre a Ciência e a Religião”, “As aventura de Frank no mundo das árvores” (ou algo assim), “Wallace/Relatos Psicológicos” e aquele no qual mais me concentrei: “O Ditador e a Tempestade” (apesar de ter feito o final de qualquer jeito). Os únicos projetos que concluí foram poemas (umas 1.000 e tantas poesias, no mínimo).

Tenho uma considerável identificação com Marcel Proust nesse sentido. Um dos maiores gigantes da literatura do século XX, era um escritor sem o mínimo de disciplina, não tinha rotina para escrever e vivia meio que empurrando as coisas com a barriga. Tanto é que, quando jovem, os outros escritores da época o consideravam um “amador”. O Interessante disso tudo é que, aos 40 e tantos anos, conseguiu escrever compulsivamente até os 51 anos, quando morreu. Espero um dia conseguir ler essa casa de tijolos que ele escreveu nesse período: “Em busca do tempo perdido”, um romance de sete fucking volumes.

Me arrependo muito de ter sido dominado por várias expectativas estratosféricas que criei, principalmente na Escrita e no meu convívio turbulento com as pessoas (algo interessante de retratar no próximo texto…). Mas se não fosse essas idealizações, acredito que não teria aprendido nada sobre mim, enquanto pessoa, e como poderia melhorar.

Até hoje me sinto um sujeito fraco por não concluir a maioria dos meus planos. Espero um dia seguir o exemplo do Proust antes dos meus 30 anos.

Matheus Cuelbas tem 20 anos e considera tanto a escrita quanto a música o combustível de sua vida. Aos 14 recebeu o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Como colunista do blog pretende compartilhar as dificuldades e os impactos que o diagnóstico e as terapias tiveram em sua vida, assim como as descobertas ao longo de um tortuoso caminho.

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