• 28 agosto de 2020
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O que são estereotipias?

De acordo com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V), os critérios diagnósticos do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) incluem: a) Déficits persistentes na comunicação e interação social em diferentes contextos e b) Padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades (American Psychiatric Association, 2014). Um dos padrões de comportamentos repetitivos observados no TEA são denominados de estereotipias, que são quaisquer comportamentos repetitivos que, aparentemente, não tem função social, sendo consideradas uma repetição de movimentos ou persistência de ações ao longo do tempo (Amaral, 2014).

Pelo fato de as estereotipias concorrerem diretamente com a aprendizagem e comportamentos sociais desejados, elas podem gerar prejuízos significativos na vida do indivíduo com TEA e sua família, tanto na área social, quanto acadêmica (Gimenes, 2018). Dentre os prejuízos estão: o afastamento das pessoas, redução na probabilidade de interação social do indivíduo que emite tais respostas, estigma social, além de comportamentos estereotipados auto lesivos, que acarretam danos físicos para esses indivíduos (Amaral, 2014). Por esses motivos, as estereotipias são um dos mais frequentes alvos de intervenção no autismo, sendo considerado ainda um comportamento de difícil manejo para produção de mudanças (Liu-Gitz & Banda, 2009).

Tipos de estereotipias

Existe uma variedade de topografias de estereotipias, podendo ser vocais ou motoras. A estereotipia vocal, que se refere a um discurso repetitivo e sem sentido, abrange a repetição de sons ou palavras, sendo estas imediatas ou tardias (Amaral, 2014). Além disso, essas repetições de sons podem ser vocalizações de outras pessoas, ou vocalizações repetidas de sons que não parecem palavras, variando de duração, intensidade e compreensão (Gimenes, 2018). Já as estereotipias motoras (que envolvem repetição de movimentos), as mais comumente observadas são:  andar na ponta dos pés, girar objetos, balançar as mãos, balanço do corpo ou da cabeça, fungar, girar objetos em direção aos olhos ou manipular de forma não funcional, colocar  objetos na boca e andar de um lado para outro (Liu-Gitz & Banda, 2009). Já a Segundo Liu-Gitz & Banda (2009), enfileirar objetos, comportamentos compulsivos e o insistir em rituais também são consideradas estereotipias.

Quais intervenções existem para redução de estereotipias?

A estereotipia é muito estudada dentro da ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que, de forma geral, faz uma avaliação com base no método da análise funcional para testar hipóteses e variáveis ambientais que mantém tais comportamentos, permitindo planejar intervenções para alterar essa classe de respostas (Liu-Gitz & Banda, 2009). A avaliação funcional pode ser realizada de diferentes formas, e uma ou mais das quatro funções seguintes podem manter as estereotipias, tais como: reforçamento social positivo (ex: atenção, elogios); reforçamento social negativo (ex: fuga/esquiva de demanda); reforçamento positivo não-social (ex: reforçamento automático); e reforçamento negativo não-social (ex: esquiva de barulhos, toques, e outras condições ambientais) (Liu-Gitz & Banda, 2009). De acordo com Barros e Benvenuti (2012), as estereotipias, em muitos dos casos, são comportamentos mantidos por reforçadores automáticos, que são “estímulos ambientais produzidos diretamente pela resposta e que independe de fatores adicionais ou arbitrários”. Em outras palavras, ao se comportar, o organismo tem acesso a uma consequência que é naturalmente reforçadora para o mesmo sem haver a necessidade de mediação de um terceiro.

Vários grupos de estratégias já foram apresentadas e estudadas para modificação desse tipo de comportamento, tais como: 1) manipulação de operações estabelecedoras; 2) extinção sensorial; 3) reforçamento diferencial; 4) punição (Liu-Gitz & Banda, 2009); e dentro de cada um desses grupos há estratégias de intervenção que Analistas do Comportamentos podem aplicar visando a redução dessas respostas.

Como posso lidar com as estereotipias do meu filho?

Vocês pais tem um papel fundamental para ajudar seus filhos a emitirem comportamentos alternativos das estereotipias. Pensando em estereotipias reforçadas automaticamente, por exemplo, uma prática muito comum e necessária é o redirecionamento de respostas estereotipadas para outras mais funcionais. No caso de crianças que emitem estereotipias motoras, como “flapping” (balançar de mãos), os pais podem pedir ajuda para a criança, fazendo com que ela coloque livros preferidos dela em uma caixa, pegar uma bola e brincarem de jogar juntos, dar blocos para que ela monte, etc. No caso de estereotipia vocal, os pais podem colocar uma música para tocar e estimular a criança a cantar e dançar juntamente à eles, fazer perguntas para que ela responda, ou no caso de crianças não vocais, redirecioná-la para outros tipos de comportamentos motores (como o brincar já mencionado), que no caso, não é incompatível à vocalização, mas que pode ajudar.

Outro ponto a ser mencionado e que é fundamental, é a importância das crianças terem um ambiente rico em estimulações para a prevenção das estereotipias, ou seja, ambientes com brinquedos preferidos disponíveis e o estabelecimento de uma rotina de atividades adequadas, funcionais e estruturadas, como atividades lúdicas, acadêmicas e de vida diária, que possam manter a criança ocupada, diminuindo a possibilidade da emissão de estereotipia, já que ociosidade é a condição perfeita para que respostas estereotipadas ocorram, uma vez que as crianças, em sua maioria, tem um repertório comportamental empobrecido para planejar atividades e brincar de forma funcional, e o que sabem fazer sozinha (e dá prazer a elas) é a estereotipia. No mais, a busca por profissionais capacitados, como os Analistas do Comportamento é fundamental para uma melhor compreensão e desenvolvimento de outras estratégias para o aumento de comportamento socialmente relevantes.

 

Referências

American Psychiatric Association (2014). DSM-V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5ª Ed.). Porto Alegre: Artmed

Amaral, L.D (2014). Systematic review and methodological evaluation of behavior analytic interventions for weakening stereotypy in individuals with autism, published in last 15 years. 2014. 88 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014.

Barros, Thiago de, & Benvenuti, Marcelo Frota Lobato. (2012). Reforçamento automático: estratégias de análise e intervenção. Acta Comportamentalia20(2), 177-184. Recuperado em 12 de novembro de 2019, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-81452012000200004&lng=pt&tlng=pt.

Liu-Gitz, L., Banda, D.R (2009). A replication of the RIRD strategy to decrease vocal stereotypy in a student with autism.

Gimenes, V.C.P. (2018). Revisão bibliográfica de intervenção comportamental para redução de estereotipias em autistas. Centro Paradigma, São Paulo.

Caroline Espíndola

Supervisora Grupo Conduzir

CRP 16/131455

 

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