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Aprender brincando, brincar ensinando: A brincadeira como estratégia de ensino para crianças

Como terapeuta ABA, sempre que desenvolvo atividades e brincadeiras para as crianças as quais atendo, penso também em como criar maneiras de deixar esse momento mais agradável, acolhedor e, ao mesmo tempo, estimulante para os pequenos. Sim, o momento destinado ao atendimento terapêutico precisa ser divertido e prazeroso, pois as crianças e precisam encontrar no ambiente estímulos que propiciem o desenvolvimento de suas habilidades.

Os pais, nossos melhores aliados e parceiros de trabalho, também podem fazer de uma brincadeira, um momento rico de oportunidades e de aprendizagem, desfrutando de toda afetividade e carinho que existe nessa relação.

O brincar, por mais simples que seja, envolve a maneira como a criança interage com o mundo ao seu redor: seus brinquedos, familiares, outras crianças e com a imensidão de estímulos que podem afetar seus sentidos de diferentes formas. Algumas vezes, essa interação pode ocorrer de maneira peculiar e diferente do que é esperado para sua idade, como acontece com as crianças que apresentam algum tipo de desenvolvimento atípico.

Algumas dúvidas podem surgir, já que nem sempre a criança parece se interessar pelos brinquedos que oferecemos, pelas músicas que cantamos, pelas cócegas que fazemos, enfim, por nossa presença e interação. Outras vezes, preferem interagir com um brinquedo ou conosco de um jeito diferente daquele que propusemos e até mesmo incomum para crianças de sua idade.

Pensando nisso, faço um convite para a leitura de algumas estratégias baseadas em um modelo naturalístico e precoce  Leblanc, Esch, Sidener, & Firth (2006), para favorecer essa interação e tornar esse momento ainda mais prazeroso e cheio de aprendizagem.

 

Como preparar o ambiente?

  1. O local

Escolher um lugar confortável, com espaço adequado para a locomoção e acomodação da criança é fundamental. É importante separar um cômodo da casa com espaço, que atenda aos seus interesses para andar, correr e explorar os brinquedos e realizar a atividade proposta. Se possível, a escolha de um local que seja livre ou com pouca interferência de estímulos (como circulação de pessoas ou ruídos externos) que possam concorrer com a atenção da criança ao propósito da brincadeira ou interação que você deseja propor.

Caso a brincadeira inclua o uso de cadeiras, mesas, estante e poltronas, as mesmas precisam ser acessíveis e acomodarem a sua altura e postura. Muitos brinquedos espalhados também podem dificultar e sobrecarregar a atenção, por isso, disponibilize apenas alguns brinquedos e deixe os demais dispostos de maneira organizada, os manipulando e intercalando de acordo com o interesse da criança.

 

  1. Atentese aos objetos e/ou atividades pelos quais a criança está interessada

É muito importante que tenhamos atenção para identificar as atividades e/ou itens que a criança está interessada no momento, assim como à maneira que interage com os mesmos. É muito comum que o adulto assuma postura de tentar sempre propor a criança o seu jeito de brincar, com um item ou atividade de sua, esperando ou exigindo que a criança atenda ou explore da mesma maneira que o proposto.

É fundamental mostrarmos como brincar de maneira funcional, mas é preciso tomar cuidado para que este momento não se torne aversivo e sim, que sejam a porta de entrada para o despertar do interesse da criança pelos adultos.

 

  1. Ofereça ajuda

Outra forma de interação que pode aumentar o interesse da criança por você é oferecer ajuda sempre que perceber que ela está com dificuldade para realizar uma tarefa ou para acessar algum brinquedo, sem exigir que ela faça um pedido para isso. Dessa maneira, você se torna a ponte para algo de seu interesse, sem que haja uma demanda ou exigência que torne essa interação aversiva.

Vale ressaltar que se trata de um recurso de aproximação e vínculo com a criança, e que o ensino da habilidade de pedir pelos itens de seu interesse é muito importante para seu desenvolvimento, portanto essa sugestão é válida apenas para os momentos iniciais da brincadeira.

 

  1. Busque sua atenção

 Uma maneira de conseguir a atenção da criança, com reciprocidade socio-emocial, (contato visual e sorriso) é posicionar-se na frente dela e manipular objetos ou fazer movimentos. Quando perceber o seu interesse por algo, busque objetos semelhantes para iniciar essa interação, sem retirar os brinquedos que já estão com ela. Por exemplo, se a criança estiver jogando no chão algumas peças das quais gosta, você pode pegar peças semelhantes e fazer a mesma ação (de jogar as peças). Por ser uma forma de brincar que a interessa, aumenta-se a probabilidade de ela olhar e se interessar pela pessoa responsável por criar esse efeito. Assim que você perceber que a criança está olhando mais vezes para você e que está atenta ao que você faz, pode oferecer a sua sugestão para a brincadeira. Ou seja, agora ao invés de jogar as peças, você pode joga-las dentro de um pote. Caso a criança não imite seus movimentos, você pode ajudá-la. Em seguida, deixe que ela volte a brincar da forma que gosta por alguns minutos e reiniciar o processo de interação com sua sugestão.

Esse foi apenas um exemplo, você pode variar suas ideias e propostas, sempre pensando nas necessidades e habilidades do seu pequeno.

 

  1. Use onomatopeias, brinquedos com efeitos sonoros e narrativas

 Usar onomatopeias pode auxiliar na sua aproximação com a criança. Enquanto manipula um brinquedo, você pode emitir sons com entonações e características diferentes, que poderão despertar curiosidade e interesse, assim como brinquedos que produzem som a partir do nosso movimento.

Fazer narrativas do que ela está fazendo e pelo que se interessa, também poderá favorecer a aprendizagem e interação. Mas é importante se atentar ao repertório vocal e de compreensão da criança. Dê preferência por usar palavras ou frases curtas pois falar muito pode confundir e sobrecarregar a criança de informações, já que ela poderá não compreender e tampouco relacionar o que está fazendo com o que você está falando.

Por exemplo: se ela pega uma bola, você pode falar “BOLA”, se ele joga uma bola, você pode falar “JOGOU”, “JOGA” ou “JOGOU A BOLA”. Se ela bate em um tambor de brinquedo, pode-se dizer “BATE”, “TAMBOR” ou “BATE NO TAMBOR”.

No futuro, essas pequenas narrativas podem se tornar instruções, conforme você as expõe de forma repetida e relacionada à brincadeira.

 

  1. Recursos que auxiliem na previsibilidade

Recursos de previsibilidade com ROTINA VISUAL DA BRINCADEIRA, por meio de imagens dos brinquedos que estarão disponíveis e sinalização do início e término, pode favorecer o engajamento na brincadeira, assim como prever o TEMPO de duração de cada atividade. Existem muitos materiais lúdicos e divertidos que podem despertar o interesse e chamar a atenção da criança, como personagens e cores de seu interesse, materiais de preferência e aplicativos, por exemplo. Por isso, é muito importante estar atento ao que desperta o interesse e curiosidade da sua criança.

Espero que com essas sugestões as brincadeiras com os pequenos fiquem ainda mais divertidas, cheias de carinho, aprendizado e alegria.

 

Referências

Leblanc, L. A., Esch, J., Sidener, T. M., & Firth, A. M. (2006). Behavioral language interventions for children with autism: comparing applied verbal behavior and naturalistic teaching approaches. The Analysis of verbal behavior, 22(1), 49–60. https://doi.org/10.1007/BF03393026

 

Lais Helena Silva

Psicóloga e Supervisora ABA – Grupo Conduzir      

CRP 06/128122

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