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Um indiano chamado Raul

Fui dormir de madrugada, deviam ser umas 2 horas ou algo assim. Mas não conseguia dormir, parecia que tinha uma marreta batendo em minha mente. Uma marreta que não causa dores ou hematomas físicos, mas buracos no seu coração, alma, ou qualquer outra coisa que acaba significando a mesma coisa: uma sensação de que sua vida não serviu para nada, não houve nada pelo qual você pudesse se orgulhar e abrir um sorriso ao se olhar no espelho. 

Minha cabeça começou a virar uma galeria de museu, cheio de quadros e objetos do meu passado, exposto numa sala. Isso me causou vergonha, medo e arrependimento. Não encontro agora, outra maneira de me recuperar dessa ressaca emocional além de externa-las de alguma forma.

Meados de 2013, não me lembro com perfeição deste ano, apenas uma ou outra situação que, de alguma forma, foram relevantes para mim. Eu era um garoto magro, extremamente baixo, se comparado com os outros alunos da minha turma. Além disso, andava sempre cabisbaixo, observando o chão, as pessoas andando e conversando ao redor. Eu era um espectador, em uma zona de conforto e ao mesmo tempo em uma encruzilhada: raramente tinha que falar com os alunos porque eu não os procurava; mas ao mesmo tempo, ficava desesperado e perdido quando alguém me procurava ou quando tinha algum trabalho em grupo.

Todavia, no final daquele ano, comecei a me incomodar com este meu afastamento. Por mais que houvesse um desejo de procurar alguém para conversar, o medo das pessoas me julgarem e criticarem havia tomado conta da minha vida. Na realidade, isso se tornou uma verdadeira paranoia. Me trancava no meu quarto e não saía por nada e, nas poucas vezes que meus pais conseguiam me arrastar para algum shopping, eu sempre tinha a sensação de todos estarem me olhando e me criticando pelo meu jeito de andar, vestir ou comportar.

Não tinha ninguém para vomitar todas as minhas angústias e demônios interiores. Porém, em janeiro de 2014, acabei ouvindo um sujeito no rádio do carro do meu pai que parecia conversar comigo. Era, se não me engano, a segunda faixa de um CD pirata com as supostas músicas da novela “Caminho das Índias”. Talvez por ser uma música dessa novela, achei que aquele cara do rádio que contava histórias para mim fosse algum indiano brasileiro. Quando a música acabou eu perguntei para minha mãe, que estava no banco da frente, ao lado do meu pai:

– Que música é essa? De quem é essa voz?

– Chama “Eu Nasci há 10 mil anos atrás”, do Raul Seixas.

– Raul Seixas… Não parece nome indiano…

– Ele é baiano filho! De onde você tirou essa história de indiano?

A partir daí minha vida virou de cabeça para baixo. Agora, aquele menino nerd que raramente ouvia música, começou a procurar por Raul Seixas, o baiano do rock n´roll. 

Ao chegar em casa, depois de algumas horas viajando de carro, fui direto para o computador comunitário da família e pesquisei naquele dinossauro que rodava Windows XP e só acessava a internet com um modem da Vivo. Quando digitei “Raul Seixas” lá estava ele, um sujeito barbudo com cabelos encaracolados e óculos escuros arredondados. Quando procurei algum vídeo deste sujeito, um dos primeiros que achei foi da música que mudou minha vida: “Eu Nasci há Dez Mil anos atrás”.

Em fevereiro chegou meu aniversário. Depois de voltar da escola, me tranquei no quarto para estudar e fazer a lição de casa. De noite, alguém bate na porta: eram meus pais com dois embrulhos quadrados numa sacola.

– Feliz aniversário! – Disseram, me entregando aquelas duas sacolas logo em seguida. Ao abrir o primeiro embrulho, esbocei um enorme sorriso, como há muito tempo não fazia. Era um CD de coletânea do Raul. Abri o segundo embrulho e li “Legião Urbana”. Por incrível que pareça, eu não conhecia. Mas quando coloquei aquela coletânea “Legião Urbana – Mais do Mesmo” (que sempre achei que tivesse escrito “Mais ou Menos”), minha vida mudou ainda mais. E assim conheci meus primeiros amigos: Raul Seixas e Renato Russo.

Matheus Cuelbas 
Colunista do blog do Grupo Conduzir. Sempre viu a escrita, como ele próprio costuma dizer, como “uma estante que organiza e clareia seus sentimentos”. Matheus tem 19 anos e foi diagnosticado com Síndrome de Asperger aos 14. Além de colunista, ele é estudante de música e usa sua habilidade de escrever para compor as músicas que ele toca em seu violão. A poesia também é sua forte aliada! Em sua coluna, ele nos trará temas de seu universo em constante movimento e experiências.

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